Eu sou...

Minha foto
Birigüi, São Paulo, Brazil
Tenho 30 anos, sou graduado em Letras pela Faculdade de Ciências e Tecnologia de Birigui (FATEB),graduado em História pela Universidade Toledo de Araçatuba e pós-graduado em Assessoria Bíblica pela Escola Superior de Teologia de São Leopoldo, Rio Grande do Sul (EST)em parceria com o Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI). Atualmente professor da educação básica de escolas estaduais de SP e cursando o pós-graduação em História Cultural pelo Centro Universitário Claretiano.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

ÚLTIMOS DIAS DE JESUS

Semana Santa: a última semana da vida de Jesus

Áurea Esteves Serra*
Lucas Rinaldini*


A Semana Santa é a história do confronto do reino de Deus com o reino de César. O confronto entre esses dois reinos intensificam-se durante a última semana da vida de Jesus.
Para entendermos essa situação de confronto se faz necessário conhecer um pouco mais sobre a cidade de Jerusalém. Para Borg e Crossan (2007) Jerusalém “é a cidade de Deus e a cidade sem fé, a cidade da esperança e a cidade da opressão, a cidade da alegria e a cidade da dor” (p. 19). Por que será que Jerusalém é conhecida por esses princípios antagônicos?
Foi por volta do ano 1.000 a.C sob o reino de Davi que Jerusalém tornou a capital de Israel e de acordo com Borg e Crossan (2007) o centro da geografia sagrada do povo judeu. O templo foi construído por volta de 900 a.C pelo filho de Davi, Salomão. Vale lembrar que a Judéia, e sua capital Jerusalém foi governada por vários impérios estrangeiros e somente a partir do ano de 63 a.C ela estará sob o controle de Roma.
Apresentando um pouco de história a partir da “Teologia da Corte de Davi” lembremos que Davi governou de 1010 a 970 a.C e seus dominios eram: Norte = Israel, Sul = Judá e Jerusalém = cidade de Davi. Já com seu filho Salomão que governa de 970 a 93 a.C, o Norte, o Sul, Jerusalém e outros reinos estão todos sob seu governo. Vale lembrar ainda que a família de Davi (a dinástia) fica com a arca da aliança e Davi a leva de Siló para Jerusalém. Talvez seja esse o motivo que segundo Borg e Crossan (2007), Jerusalém é o “‘umbigo da terra’”, ligando este mundo a sua origem em Deus, confira Ez 5,5!. Aqui (somente aqui) ficava o local de moradia de Deus na terra (...), estar no templo era estar na presença de Deus” (p.20). Para Gallazzi (2002), somente os sumos sacerdotes podiam se aproximar desse lugar santo, lugar da presença de Deus. Ainda para este autor “este fato garante a concentração do poder do controle ideológico na mão do templo e do sacerdote” (p.204).
Jerusalém torna-se esplêndida no governo de Herodes , o Grande na qual, este rei dos judeus reconstrói o Templo, constrói palácios, fontes, portos etc. Para Gass (2007):

Se o templo era o núcleo central do Judaísmo, convém lembrar que, por extensão, a cidade de Jerusalém era o centro político e espiritual do povo judeu. No tempo de Jesus, tinha em torno de 50 mil habitantes. Mais de um terço deles dependia diretamente das atividades normais do templo e das obras de ampliação.

Jerusalém se torna um lugar de grandes peregrinações para festas que tiveram sua origem no Êxodo (Ex 23, 14-19) e Jesus, provavelmente participou de algumas delas. Veja em Lc 2, 41-50; 22, 7-18; Jo 2, 13-25; 11,55ss.
Os romanos tinham conhecimento de que os judeus esperavam por um Messias, por isso, quando algumas dessas festas se aproximavam, em especial a Páscoa, o procurador romano deixava sua residência para comandar diretamente para comandar as legiões.
Não é à toa que Marcos colocou a entrada triunfal de Jesus no domingo de Ramos (Mc 11, 1-11). Tal fato serve de oposição à entrada do poder do Império em Jerusalém. Conforme Borg e Crossan (2007), duas procissões estavam acontecendo naquela ocasião, “Uma foi uma procissão de camponeses, a outra um desfile imperial”. Ou seja, Marcos coloca Jesus como aquele que traz um reino diferente, o Reino de Deus.
No dia seguinte, a segunda-feira, acontece o episódio da figueira intercalado com o episódio do Templo (Mc, 11, 12-21) que termina no início da terça-feira. Será que Jesus foi tão petulante e até abusou de seus “poderes” nessa situação? Seria esse o Jesus libertador, o messias que se esperava? Pouco provável.
É preciso entender tanto o incidente da figueira quanto o do Templo mutuamente. Depois da figueira, Marcos coloca o trecho em que Jesus chega ao templo e explusa os vendedores e compradores que ali se encontram (Mc 11, 15). Jesus era judeu e é muito provável que tinha apreço pelo Templo, mas não da forma como estava sendo administrado. De fato, aquele lugar havia se tornado uma casa de comércio. O que uma pessoa busca em uma igreja ou templo? Um contato mais próximo com Deus, com as pessoas, uma orientação, algo que possa saciá-la de alguma forma. Não estaria essa pessoa em busca de algum fruto? Nos dois casos, o problema era a falta do fruto que Jesus buscava (Borg e Crossan 2007). Em outras palavras, Jesus não aceita um templo que não produza frutos, esse templo deve ser destruído.
Na terça-feira, dentre vários acontecimentos, destaca-se aqui o momento em que sumo sacerdotes, escribas e anciãos questionam a autioridade de Jesus (Mc 11, 27-33). Os doutores da Lei querem encontrar uma maneira de fazer com que Jesus se incrimine por suas próprias palavras, no entanto, são surpreendidos com outro questionamento feito por Jesus que não fica numa atitude passiva. É inadequado, quando se estuda o Jesus Histórico, afirmar que Jesus foi passivo. Ele não usou de violência para com as pessoas, mas usava sua inteligência e conhecimento da Lei para colocar os doutores em situações constrangedoras. A violência está na reação dos sumo sacerdotes, escribas e anciãos que, com seu orgulho ferido, planejam matar a Jesus.
Ainda na terça-feira, há outro incidente. Alguns herodianos vão questionar Jesus se é lícito pagar imposto a César (Mc 12, 13-17). Está muito claro que tentam fazer com que Jesus caia numa armadilha. Se ele disser “não”, pode ser acusado de subversivo e ser preso imediatamente. Se disser “sim”, estará legitimando a exploração romana sobre o povo judeu. O que fazer então? A primeira atitude de Jesus é perguntar se eles tinham um denário, que é uma moeda romana. E as autoridades judaicas o tem! Um judeu não carrega moedas com imagens, é idolatria! Nas palavras de Borg e Crossan (2007):

A estratégia de Jesus leva seus interrogadores a revelar à multidão que eles têm uma moeda com a imagem de César. Neste momento, eles ficam desacreditados. Por quê? Na pátria judaica do primeiro século, havia dois tipos de moedas. Um tipo, devido à proibição dos judeus de ter imagens gravadas, não possuía imagens humanas ou de animais. O segundo tipo (inclusive as moedas romanas) tinha imagens. Muitos judeus não carregavam nem usavam moedas desse segundo tipo. Mas os interrogadores de Jesus na história as carregavam. A moeda que eles apresentaram tinha a imagem de César junto com o estandarte e a inscrição idólatra que chamava César de divino e Filho de Deus. Eles São revelados como integrantes da política de colaboração.

Seria o mesmo que qualquer líder religioso hoje criticasse as atitudes dos Estados Unidos, mas usufruísse do dólar. É o mesmo que criticar a televisão e nao perder um capítulo da novela.
Jesus mostra quem realmente está a favor da exploração. São as próprias lideranças judaicas que carregam a moeda do império. Isso é ponto chave para se entender o que se segue. Jesus continua com o seguinte dito: “O que é de César, dai a César: o que é de Deus, a Deus”. (Mc 12, 17). Diante do contexto histórico, é equivocado afirmar que Jesus justifica o pagamento de impostos absurdos. O império romano invadiu e tributou as terras e toda a produção do povo da palestina. Daí vem a pergunta: o que é de Deus? A terra e o que ela produz é de Deus! O povo é de Deus! A Deus, o que é de Deus! Não pertence a César. Indiretamente, Jesus afirma que o império é invasor e injusto e não concorda com essa prática! Mas não faz isso de maneiro explícita, primeiro ele mostra quem são realmente os colaboradores do império explorador.
Na quarta-feira, Jesus está na casa de Simão, o leproso (Mc 14, 1-11). Entra uma mulher que lhe unge a cabeça com um perfume caríssimo. Ela é criticada pelos que ali estão, pois o dinheiro gasto com o perfume poderia ser usado para os pobres, mas Jesus a defende a mulher, pois a prática de dar esmola, ou comprar comida, ou qualquer outra coisa para os pobres não devolve a eles dignidade e não é partilha. Basta conferir o que está escrito em Dt 15, 11: “Nunca deixará de haver pobres na terra; é por isso que te ordeno: abre a mão em favor do teu irmão. Do teu humilde e do teu pobre em tua terra”. Jesus propõe a partilha e não a esmola.
A atitude da mulher simboliza que ela reconhece que Jesus é o Messias que será assassinado pelo poder opressor. O próprio Jesus diz: “Ela fez o que podia: antecipou-se a ungir o meu corpo para a sepultura.” (Mc 14, 8). É possível estabelecer um contraponto com o conceito de Messias que Pedro tem. Confira em Mt 16, 21-23. Os discípulos têm dificuldade em entender que a missão de Jesus exige dedicação total, mesmo que para isso, seja necessário se arriscar em busca do seu objetivo.
Chega a quinta-feira que para os católicos é o dia da instituição da Eucaristia (Mc 14, 22-25). Nesse dia Jesus come a ceia com seus discípulos e suas discípulas pouco antes de se dirigir parao Getsêmani onde seu sofrimento se acentua. Na ceia, deve-se observar que Jesus, mesmo estando prestes a ser preso, sabendo do perigo que corria, transforma esses sentimentos em amor e quer partilhar com seus amigos e amigas. Esse seria talvez o grande mistério da Eucaristia. Longe de significados mágicos, a Eucaristia é o maior e mais desafiador milagre humano: transformar o medo em amor! Lembrar-se de que Jesus teve um projeto a favor dos fracos, dos pobres, dos doentes, de todos(as) injustiçados(as) e que, fazendo memória de sua ceia, até hoje, todos cristãos e todas as cristãs são convidados(as) a transformar seus medos, angústias e dificuldades em força para enfrentar as dificuldades.
No Getsêmani (Mc 14, 32-42), é interessante enfatizar como Jesus está sofrendo. Ele tem consciência de que sua prática suscitará o ódio dos adversários e que, por isso, ele corre sério risco de morrer. Por isso, chega a pedir ao Pai que afaste esse cálice (Mc 14, 36). Ao contrário de que muitos pensam, Jesus não veio para morrer, não está no projeto de Deus a morte de um inocente, mas sim a vida digna a todas as pessoas. Acontece que para o império opressor, o Reino de Deus não é bem-vindo! A morte de Jesus é culpa da ganância e dureza de coração dos seres humanos que promovem o acúmulo de riquezas e isso acontece até hoje!
Sexta-feira é o dia da crucificação de Jesus (Mc 15, 34-41). A situação é desesperadora. O Messias servo sofre as consequências de sua vida comprometida com o Reino de Deus. Um pobre camponês, que amava a justiça estava agora só. Abandonado por seus amigos, sente-se também abandonado por Deus. Pouco antes de morrer, lamenta: “Deus meu, Deus meu, porque me abandonaste? (Mc 15, 34). Jesus morre rezando o Salmo 22. É interessante ler todo o esse salmo para se ter uma ideia do sofrimento de Jesus nessa hora e que, mesmo assim, ele louva a Deus e não deixa de acreditar.
Marcos menciona sobre as cortinas do templo que se rasgam (Mc 15, 37). O Santuário era considerado o lugar do Templo onde Deus estava realmente presente e somente o sumo sacerdote poderia ali entrar apenas um dia no ano. Para Borg e Crossan (2007), esse momento tem um duplo significado:

Por um lado, era um julagamento do templo e das autoridades locais, que colaboraram com a Roma imperial para condenar Jesus à morte. Por outro lado era uma afirmação: dizer que a cortina, o véu, tinha sido rasgada era afirmar que a execução de Jesus significava que, a partir daquele momento, o acesso à presença de Deus estava livre. Essa afirmação enfatizava a apresentação de Jesus feita por Marcos anteriormente, no evangelho: Jesus mediava o acesso a Deus independentemente do templo e do sistema de dominação que este passara a representar no século I.

Em seguida, encontra-se na boca de um centurião a declaração de que Jesus, de fato, é o Filho de Deus (Mc 15, 39). O que isso quer dizer? Quer dizer que o centurião romano, que reconhecia apenas o imperador como filho de Deus, agora confirma que Jesus era a própria vontade de Deus encarnada num ser humano. O verdadeiro Reino de Deus não é aquele que se impõem pela violência, mas aquele que resiste até o fim, dando um grande grito que ecoa no mais profundo do ser humano. É um grito que transcende e diz mais do que quaisquer palavras.
Sobre o sábado, pouco contam os evangelhos. Marcos já passa para a madrugada de domingo. Mateus é quem relata uma conspiração entre os sacerdotes e os fariseus e Pilatos baseada nos rumores de uma ressurreição (Mt 27, 62-66). O projeto de Deus é a vida, em oposição ao projeto do império que é a morte. Aqueles que são contra o projeto de Deus tentam a todo custo, e sem sucesso, impedir a resposta de Deus ao coração de pedra dos homens.
Esse silêncio que se percebe nos evangelhos, em relação à figura de Jesus, no sábado, pôde ser sentido, e é sentido até hoje, na tradição católica. Pouco ou nada se fala de Jesus no dia de sábado. Para os romanos reunidos naquele momento, era apenas mais um agitador que havia recebido sua punição por contradizer o império. Jamais poderiam imaginar que ali, daquela cruz, surgiria uma luz gloriosa para todos os séculos.
O domingo é hoje considerado o Dia do Senhor. Foi no domingo que Deus terminou sua criação e viu que tudo que havia feito era muito bom (Gn 1, 31-2, 1). Tudo que Deus havia feito era bom! Mas com o passar do tempo, muitas coisas foram acontecendo e o Projeto de Deus foi desviado, a Bíblia conta boa parte da trajetória desse povo, com sua luta para retomar o princípio do projeto da criação. Por isso, domingo também é dia da ressurreição! (Mc 16, 1-8) Ao ressuscitar Jesus, Deus recria seu projeto. Não é por acaso que a ressurreição é colcocada num domingo. É a justificação da vida de Jesus. É quando Deus diz que as palavras e ações de Jesus são o caminho para o seu projeto desde o início da humanidade e que deve ser levado adiante pelas comunidades após a morte de Jesus. A vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus restaura o Projeto inicial de Deus.
Existem, é claro, muitos outros fatos que se passaram nos dias que marcaram a última semana de Jesus, no entanto, não compete aqui comentar tudo e fazer um estudo aprofundado. O que se tem aqui é uma breve relfexão sobre esses últimos dias de um homem que viveu profundamente a vontade de Deus e conseguiu transformar um símbolo de morte, a cruz, num símbolo de esperança e libertação. A cruz que antes era martírio, agora, com os cristãos passou a ser um sinal de luz e Boa Nova. Cabe a todos e todas que assumiram o compromisso de serem cristãos e cristãs a usarem a cruz para promover a vida e a ressurreição!



REFERÊNCIA
BAZAGLIA, P (dir). BÍBLIA de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002. 2206p. ISBN 85-349-1977-1.
BORG, Marcus J.; CROSSAN, John Dominic. A última semana: um relato detalhado dos dias finais de Jesus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007.
GALLAZZI, Sandro. A teocracia sadocita: sua história e ideologia. Macapá: Sandro S. Gallazzi, 2002. (Biblioteca de Estudos Bíblicos).
GASS, Ildo Bohn. Uma introdução à Bíblia: período grego e vida de Jesus – Primeiro Testamento. 2ª ed. São Paulo: Paulus; São Leopoldo, RS: Con-texto, 2007. vol. n. 6. (A serviço da leitura libertadora da Bíblia).

Nenhum comentário:

Ocorreu um erro neste gadget